Dia Mundial do Cancro do Pulmão: Os anos que não contamos

1 de agosto de 2026 | Dia Mundial do Cancro do Pulmão

Debra Montague, Presidente da Lung Cancer Europe

Um único dia não é suficiente para combater um cancro que ainda ceifa mais vidas do que qualquer outro na Europa.

Vale a pena assinalar o Dia Mundial do Cancro do Pulmão, mas apenas se isso nos levar a analisar com honestidade o que mudou e o que não mudou.

Tem havido progressos reais no tratamento do cancro do pulmão. É possível um diagnóstico mais precoce. Os tratamentos melhoraram. Algumas pessoas vivem agora durante muitos anos com uma doença que, outrora, lhes deixava muito pouco tempo de vida.

Sei o quanto esse progresso significa.

Mas também sei que o facto de estar vivo não diz tudo.

Todos os anos, a Lung Cancer Europe questiona pessoas de toda a Europa sobre os desafios que enfrentam ao viver com cancro do pulmão. Cada relatório tem abordado uma vertente diferente da vida: as finanças e o trabalho; a informação e as decisões relativas aos cuidados de saúde; a saúde mental; e o apoio que as pessoas recebem — ou não recebem.

Juntos, proporcionam-nos algo bastante raro: uma imagem construída ao longo do tempo do que realmente significa viver com cancro do pulmão, para além dos resultados dos tratamentos e dos números relativos à sobrevivência. E a mesma mensagem volta a surgir repetidamente: os progressos no tratamento nem sempre foram acompanhados por progressos no resto da vida das pessoas.

O que está por trás da sobrevivência

A sobrevivência a cinco anos é importante. Indica-nos se uma pessoa ainda está viva cinco anos após o diagnóstico.

Não nos consegue dizer como foram esses anos.

Não nos permite saber se alguém está a lidar com efeitos secundários difíceis. Se consegue trabalhar. Se consegue dormir na noite anterior a um exame. Se tem dinheiro suficiente para pagar as contas. Se compreende as suas opções de tratamento ou se se sente ouvido quando as decisões são tomadas.

Não nos permite saber se esses anos a mais nos dão a sensação de ter mais vida.

Uma análise recente do Global Burden of Disease analisou esta questão no contexto da saúde em geral. Concluiu que as pessoas estão a viver mais tempo, mas que o tempo passado em mau estado de saúde também aumentou. Entre 1990 e 2023, a esperança de vida aumentou mais rapidamente do que a esperança de vida saudável.

Este é um panorama global, que abrange centenas de doenças. Mas vem quantificar algo que as pessoas afetadas pelo cancro do pulmão nos vêm dizendo há anos: uma vida mais longa e uma vida melhor não são, automaticamente, a mesma coisa.

Os depoimentos que ouvimos

O nosso 8.º Relatório analisou o impacto financeiro do cancro do pulmão.

Quase dois terços das pessoas que participaram afirmaram que o rendimento do seu agregado familiar tinha diminuído desde o diagnóstico. Entre aqueles que perderam rendimento, três quartos tinham perdido mais de um quinto do mesmo e quase metade tinha perdido mais de um terço.

Quase metade teve dificuldades em pagar as despesas relacionadas com o cancro do pulmão. Mais de um em cada quatro tomou uma decisão que afetou os seus próprios cuidados ou tratamento por motivos financeiros.

Isso pode significar voltar ao trabalho antes de se sentir pronto. Faltar a consultas. Adiar cuidados de apoio. Gastar as poupanças que estavam destinadas à velhice.

Os nossos relatórios posteriores analisaram a informação, o grau de envolvimento das pessoas nos seus próprios cuidados e a saúde mental. As pessoas disseram-nos que queriam que as suas opiniões fossem tidas em conta na tomada de decisões e que, com demasiada frequência, sentiam que isso não acontecia. Falaram-nos da falta de informação ou de apoio de que necessitavam. Falaram-nos do medo do regresso do cancro, da ansiedade e do isolamento.

Trata-se de relatórios diferentes, mas não de histórias distintas. O dinheiro afeta a saúde mental. Os efeitos secundários afetam o trabalho e as relações. A falta de informação agrava a incerteza. Sentir-se excluído das decisões pode fazer com que uma pessoa fique menos segura quanto aos seus próprios cuidados de saúde.

Esta é a realidade por trás de um número relacionado com a sobrevivência.

Acreditar no que as pessoas dizem

Ninguém está a dizer que uma maior sobrevivência não conta. Claro que conta.

Mas as pessoas não deviam ter de escolher entre ter mais tempo e uma vida que possam realmente viver.

Precisamos de tratamentos que funcionem, acompanhados de apoio adequado para lidar com as consequências que têm nas pessoas. Precisamos de apoio emocional que esteja disponível quando for necessário, e não apenas quando um serviço por acaso o oferece. Precisamos de informação clara e de conversas sinceras. Precisamos de ajuda prática no que diz respeito ao trabalho e às finanças.

E temos de levar a sério as pessoas quando nos dizem o que um bom resultado significa para elas.

O trabalho que ainda temos pela frente

Quando se vive com cancro do pulmão, atingir um marco não faz com que tudo volte ao normal. As consultas podem espaçar-se. Outras pessoas podem decidir que a parte mais difícil já passou. Mas a ansiedade antes de um exame, os efeitos do tratamento, a incerteza sobre o que se segue, nada disso segue um calendário bem definido.

É por isso que a qualidade de vida não pode ser considerada algo menos concreto ou menos importante do que a sobrevivência.

Faz parte do resultado.

Sei disso por experiência própria.

A partir de 1 de setembro, a Lung Cancer Europe irá lançar o inquérito para o nosso 12.º Relatório, sobre a qualidade de vida e as necessidades de apoio. Iremos pedir às pessoas que vivem com cancro do pulmão e àqueles que cuidam delas que nos contem como é realmente a sua vida.

Tornámo-nos mais hábeis a contar os anos que se somam. Agora, precisamos de os compreender.

Por Debra Montague
Presidente da Lung Cancer Europe

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